o balanço sobre a relva – 1

o vento gelado balança as cortinas semi-abertas e invade sutilmente a sala de estar da casa, se acoplando ao piso de madeira enquanto alicia permanece sentada no chão ao lado da pequena mesa de centro. com uma de suas pernas esticadas à frente de seu corpo enquanto a outra se mantém cruzada como apoio de seu livro, a garota lê atentamente, segurando com a mão esquerda uma caneca de chocolate quente.

ela leva a porcelana azul turquesa até os lábios segundos antes de escutar a porta da frente ser aberta e o som descompassado do caminhar de chris tomar conta do local. ele acabava de chegar de mais um de seus passeios de fim de tarde, algo que fazia não como obrigação rotineira, mas como oportunidade para se manter “livre de influências externas”, estando em contato com a natureza e se privando da tecnologia por uma ou duas horas. mantendo seus olhos no livro, ela posiciona a caneca na mesinha enquanto o homem se aproxima, chutando os tênis em um canto qualquer do cômodo.

“lendo o quê?” ele se joga no sofá atrás dela e recua o pé da mesa quando ela levanta o olhar acusador para seu rosto ao vê-lo quase derrubar seu chocolate.

“sherlock holmes” repousa o livro sobre a mesa e vira parcialmente o corpo, abraçando seus joelhos ao levantar o olhar para o homem.

“e já terminou de ler aqueles contos do poe? passou o dia nisso, imagino” ela concorda com a cabeça ao pegar novamente a caneca e ele sorri enquanto inclina o corpo para beijar a testa dela, deixando seu cheiro ao redor da garota ao se levantar, rumo ao corredor “vou tomar um banho e me juntar à você, que tal?”

“é uma ideia encantadora” sua voz suave ecoa pelo lugar quando ela se levanta, levando a caneca consigo até a janela para observar o céu “não apenas li hoje, também consertei nosso balanço”.

“sério?” ele grita do banheiro, com a voz abafada pelo tecido da blusa que estava tirando “eu adoraria me juntar à você e ao pompey no nosso jardim nesse pôr do sol pra mais uma de suas leituras pretensiosas de… qual será o poema de hoje?”

“uma leitura nada pretensiosa de canção de mim mesmo” ela retruca com um sorriso no canto dos lábios pela implicância rotineira. a risada dele chega aos ouvidos dela que instintivamente repete o ato, observando os pássaros-graúna entre as árvores antes de levar a caneca aos lábios e terminar de tomar seu chocolate, trocando o peso de um pé para o outro. “se eu quisesse mesmo ver o pôr do sol, me apressaria no banho, está quase na hora” ela diz mais alto.

“isso quer dizer que a senhorita vai entrar aqui e me ajudar a me apressar?” ele grita com um tom claro de provocação a qual ela revira os olhos, dando as costas à janela e caminha até a cozinha deixando a caneca em cima da bancada.

“vou usar essa carta mais tarde, quem sabe você consegue tomar dois banhos em um dia ao menos uma vez, né?” cruza os tornozelos se apoiando no móvel e prende a risada ao ouvir o chuveiro ser aberto sem que ela recebesse uma resposta.


“eu celebro a mim mesmo
e o que eu assumo você vai assumir
pois cada átomo que pertence a mim pertence a você”

com os livros em mãos ela repete as palavras já muito conhecidas pelos dois devido ao hábito da garota de ler continuamente o mesmo livro enquanto chris se mantém em silêncio notando a suavidade e a clareza das palavras que tomam o lugar e se juntam ao farfalhar da grama não-tão recém-cortada que se agita com a correria incessante do cachorrinho ao redor da grande e bela árvore na qual se suspende o balanço onde o casal se encontra.

“vadio e convido minha alma, 
me deito e vadio à vontade…. observando uma lâmina de grama do verão”

os olhos dele viajam por toda a paisagem, tentando compreender novamente os versos que para ele nunca fizeram total sentido. mesmo que se conformasse com a absoluta genialidade de whitman, frequentemente se pegava imaginando o que havia entre os rabiscos desse livro que tanto se fundiam à alicia, à ponto de ver em seu rosto a afeição e o êxtase que cada parágrafo causavam nela, e foi isso que seus pensamentos o levaram a fazer. o homem segura as cordas do balanço dando suporte às costas dela e impulsiona seus pés no solo balançando os dois levemente enquanto ela não se desconcentra de seu livro, sussurrando as palavras ciente do vento em seu rosto.

“casas e quartos se enchem de perfumes…. as estantes estão entulhadas de perfumes,
respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço,
sua destilação poderia me intoxicar também, mas não deixo.”

um sorriso brota no canto de seus lábios ao continuar a leitura.

“a atmosfera não é nenhum perfume…. não tem gosto de destilação …. é inodoro,
é para minha boca apenas e para sempre…. estou apaixonado por ela,
vou até a margem junto à mata sem disfarces e pelado,
louco pra que ela faça contato comigo.”

ele inclina levemente a cabeça, ponderando sobre perguntar ou não ao passo em que ela nota sua hesitação, levantando um olhar firme e brincalhão, analisando desde o queixo até o cabelo que cobre parcialmente a testa do homem. “quer que eu te explique?” o tom rosado de seus lábios se acentua quando ela os morde, contendo uma risada pela clara implicância em seu próprio tom de voz.

“oh, por favor. comece da parte onde compartilhamos nossos átomos e vá adiante” ele pisca os olhos algumas vezes enquanto fala com deboche, mantendo seus pés no chão para controlar a velocidade do balanço.

“somos um só” ela sussurra olhando para o livro “biologicamente… isso teria alguma explicação? estou tentando pensar em algum jeito de traduzir esse conceito simples”

“sei que somos um só, eu e você” ele umedece os lábios mantendo o olhar fixo nela, tentando manter a expressão séria ao mesmo tempo em que ela sorri e nega com a cabeça “ok, as estrelas, então? poeira cósmica?”

“isso, ótima metáfora” concorda com a cabeça e desvia o olhar para grama “somos todos restos de uma explosão estelar, então, como partes de um mesmo elemento éramos um só… aqui-” ela bate com as pontas dos dedos na capa do livro agora fechado “fomos e sempre seremos parte de uma só unidade, sem ordem e contínua. me entende?”

“poesia, uhum” ele revira os olhos, embora curioso por entender o significado de tantas metáforas. seus olhos viajam pelo jardim enquanto recebe o vento calmo daquele fim de tarde, vendo os dentes-de-leão se desfazendo ao longe.

the quidditch player – one.

1 de Outubro de 1976 – Hogwarts (Em Algum Lugar na Escócia)

A MÚSICA ESTAVA EM TODO LUGAR: descendo as escadas lentamente, seguindo o ritmo dos fantasmas, atravessando paredes e preenchendo cada espaço do palácio. flutuando ao redor dos ouvidos dos inocentes primeiranistas que -maravilhados- se entusiasmavam com seu primeiro Dia das Bruxas em Hogwarts e tendo suas batidas sincronizadas com as apressadas respirações dos atrasados, que corriam pelos degraus agitados até o salão comunal. Este, por sua vez, tinha toda a energia representante do verdadeiro espírito de Halloween; morcegos voavam pelo cômodo em massa: ora pairando acima de alguns chapéus pontudos e cabecinhas curiosas, ora traídos pelo teto enfeitiçado, voando obstinadamente na intenção de mergulhar entre as nuvens e descendo outra vez, zonzos pela colisão com os tijolos do teto. Abóboras haviam sido caprichosamente confeccionadas pelo próprio Hagrid para a ocasião, como em todos anos, e distribuídas aos montes pelo palácio, algumas no salão eram até maiores do que ele! Elas eram usadas para a iluminação e por vezes preenchidas inteiramente com doces que apenas os alunos do primeiro ano comeriam pois não estavam acostumados com as eventuais pegadinhas de alguns estudantes do terceiro ano, que enfeitiçavam os doces nas áreas públicas frequentemente, de forma que já era um certo costume que a enfermaria ficasse tumultuada no dia seguinte.

  • Ande logo, James! – Lupin gritava batendo outra vez na porta do banheiro antes de se dirigir aos outros dois amigos – Será que ele pretende passar a noite toda ali dentro?
  • Provavelmente está tentando ficar galante para Evans. Vamos, Pontas! Se ela não sente repulsa ao seu mau hálito matinal com toda certeza não vai ligar se seu cabelo estiver sujo de lama! –  Sirius grita através da porta, se afastando com algumas sacudidas de cabeça espalhando seus fios negros ao redor do rosto – As garotas adoram quando meu cabelo está bagunçado após o quadribol. – riu.

Estavam já há vários minutos no dormitório esperando James para descerem para o jantar, mas Potter havia se trancado no banheiro e não respondia a nenhum chamado, a única certeza que tinham de sua sobrevivência eram os constantes pigarros que vinham de dentro do cômodo, o que geralmente indicava nervosismo da parte do maroto.

  • Tenho quase certeza de que esse seu cabelo seboso não é considerado pelas garotas uma qualidade… – James finalmente saíra do banheiro, exatamente como havia entrado.

Estava um pouco ansioso após seu rápido encontro com Lílian depois do treino de quadribol a tarde. Ela foi assistí-los com a desculpa de que ‘queria apoiar sua casa’ e despretensiosamente encontrara James – quando este saía do vestiário – para marcar um encontro depois do jantar. Potter mal falara o resto do dia depois de se despedir da ruiva com um beijo na bochecha e vê-la sair timidamente entre os jogadores do time, e agora que o encontro se aproximava, estava ainda mais nervoso. Ele gostava dela há tanto tempo! Queria impressioná-la, queria muito.

  • Está me confundindo com Ranhoso?! Meu cabelo é muito bem cuidado, fiquem sabendo. – Black colocou o segundo anel em sua mão esquerda (alguns dos únicos acessórios que considerava cruciais) e fez uma cara feia pro amigo, logo a desfazendo numa risada ao notar a aparência dele – Passou esse tempo todo lá dentro e continua com a mesma cara idiota de sempre? Santo Merlim, James! Lily Evans ainda o deixará maluco!

Os Marotos desceram as escadas apressados e conseguiram chegar a tempo de escutar o fim do discurso de Dumbledore, que lançou-lhes um leve olhar de repreensão ao ser interrompido.

  • James está bem? – Rabicho sussurrou para Lupin, que encarava seu prato cheio. Seus amigos já estavam no fim de suas refeições – Pettigrew de sua segunda – e Remo não havia nem tocado em sua comida. não sentia nenhum resquício de fome.
  • É, James, você está bem? Fazem quarenta minutos que não tira os olhos da Evans. – a voz alta e implicante de Sirius chamou a atenção de todos ao redor, inclusive Lílian que – distraída conversando com Alice – não notara os olhares de seu colega de casa.

Ao entender de que se tratava o assunto, seu rosto delicado se tornou tão vermelho quantos seus cabelos e ela sorriu, o que bastou para que Sirius escutasse o leve suspiro involuntário de seu melhor amigo. James era tão bobo! Sirius tinha sorte, não se apaixonava com facilidade e não se via preso romanticamente a ninguém desde que se reconhecia por gente. Ele tinha joguinhos, claro, qualquer estudante de Hogwarts sabia como funcionavam os lances com Black: ele não pertencia a ninguém e não fazia questão de que pertencessem a ele. Todos saiam ganhando.

  • Alice estava me contando sobre sua última detenção, Sirius. – Lílian desviou o assunto, recebendo uma cotovelada envergonhada de Alice, que lançou um olhar tímido a Sirius. – Escutou de alguns primeiranistas que estava aos beijos com uma corvina do terceiro ano na sala de poções quando foram pegos pelo zelador.
  • “Aos beijos” é eufemismo, Evans. – Sirius se gabou – a palavra que eu usaria é um pouco mais… específica. Estaremos em detenção juntos na terça, é uma ótima oportunidade para continuarmos de onde fomos interrompidos.
  • Temos compromisso na terça – James finalmente se pronunciou, cobrindo a boca – Aluado precisa de nós, esqueceu? – completou mais baixo.

Sirius encontrou o olhar de Lupin do outro lado da mesa e este sorriu tristemente. A lua cheia se aproximava e Remus já podia sentir seu corpo se preparando para seu encontro mensal com sua forma animaga. Black pressionou os lábios e assentiu decididamente, ele nunca deixava um amigo na mão: – Claro, eu dou um jeito de me livrar dessa, não se preocupem. – piscou pro homem à sua frente com um sorriso de canto.


  • Droga, Black! Por acaso está ficando cego?! – um grifinório o xingou quando Sirius passou correndo pela sala comunal em direção às escadas que o levariam até seu quarto.
  • Me desculpe! – Black gritou antes de fechar a porta atrás de si, jogando os equipamentos de quadribol no chão e se deparando com seus amigos, já banhados e devidamente vestidos. – E foi mal vocês também.
  • Tinha que ficar no campo até tarde outra vez, Sirius? – James estava ajoelhado ao lado de seu baú, colocando alguns de seus itens dentro de uma mochila velha – Não vai intimidar os sonserinos estando totalmente fatigado com tantos treinos intensos, esse seu plano é ridículo.
  • E ainda está atrasado para sua detenção. – Rabicho acrescentou, com a mão enfiada dentro de um saquinho de sapos de chocolate. Remus se mantinha sentado encarando o chão em silêncio.
  • Eu sei, eu sei!! – o moreno resmungou, tirando os sapatos e a camiseta abruptamente – mas Greengrass apareceu para seu treino informal assim que vocês saíram então achei uma boa estratégia sondá-la e com sorte conseguir descobrir os planos deles para o próximo jogo.
  • Ou seja: estava tentando entender as técnicas de jogo de Greengrass mais uma vez porque se sente ameaçado.
  • EU NÃO ENTENDO COMO ELA FAZ ISSO!! – Black bateu fortemente a porta do banheiro, deixando um Potter sorridente do lado de fora.

Violet Greengrass era a artilheira do time da Sonserina, a melhor que tinham desde que se lembravam. Ela era a maior adversária de Sirius e vivia driblando as defesas grifinórias com uma facilidade espantosa, o que enfurecia Black profundamente. Ele não admitia perder para uma sonserina e desde a última vez em que isso aconteceu, vinha assistindo discretamente a todos os treinos informais dela.


Uma hora depois os marotos se separaram com um Sirius apressado indo até a biblioteca onde seria cumprida a detenção e seus amigos seguiram seu caminho até a casa dos gritos. Black havia dito que os encontraria lá antes das 21h, mesmo que ainda não tivesse elaborado um plano para fugir de seu castigo. As ideias corriam por sua mente enquanto ele tentava não se atrasar ainda mais por conta das escadas e ainda sim, ao chegar em frente a grande porta de madeira, não tinha plano algum além de alegar indisposição e torcer para que fosse o suficiente.

  •  Está 45 minutos atrasado, Senhor Black. Posso saber o motivo? – o zelador o surpreendeu, abrindo a porta antes mesmo que ele pudesse se recompor de sua corrida.
  • Uh, eu me perdi… as escadas, sabe? Elas mudam. – apertou seu passo até o pequeno grupo de alunos reunidos numa mesa oval antes que o homem pudesse lhe responder.

Ao se aproximar, Sirius pôde ver suas primas Bellatrix e Andromeda cochichando furiosamente. Seus olhos encontraram os dos outros detentos e rapidamente se focaram no rosto de Violet Greengrass, que desenhava em seu livro ao lado de Andromeda. Ela parecia prestar atenção à discussão de suas colegas de casa, pois mantinha um leve sorriso de deboche em seus lábios finos. Sirius se perguntava como Andy conseguia conviver com eles. Não era surpresa que estivesse sempre com uma carranca e discutindo com as irmãs.

  • Agora que estão todos aqui, quero que organizem essas pilhas de livros em suas respectivas sessões. – a voz do zelador chamou a atenção dos ali presentes e ele gesticulou para o monte de livros deixados por alunos nas mesas ao seu lado. Sirius não sabia que a biblioteca era tão movimentada, não era esse o uso que ele fazia dela.  – a detenção termina às 23h. Eu estarei na recepção e o monitor da corvinal os vigiará, quando voltar espero que tenham terminado a tarefa. – e seguiu na direção da entrada da biblioteca.
  • Podemos trabalhar numa dessas pilhas juntos… – a garota com quem estava pela manhã passou as mãos por seus ombros, mas ele não podia se atrasar e já eram 19h e 45.

Desvencilhou-se dela com um sorriso amigável, sentando à mesa junto aos outros. As Black não haviam nem se movido e continuavam em sua briga silenciosa, com Violet ao seu lado rabiscando incessantemente a página em branco de seu livro. Os outros alunos por sua vez haviam começado a cumprir a tarefa vagarosamente, e Sirius se via cada vez mais impaciente. 20h00. Na casa dos gritos, seus amigos já poderiam estar vivenciando os primeiros sintomas da transformação de Remus e ele estava ali, preso na biblioteca com o som dos livros sendo postos nas prateleiras, os cochichos enfurecidos de Bella e seus próprios dedos batendo na madeira em frenesi.

  • Black. – uma voz lhe despertou de seu transe.
  • Greengrass.
  • Por acaso está doente? Pensa que vai perfurar a mesa ou algo do tipo? – Não era preciso olhar para seu rosto pra perceber seu sorriso debochado.
  • E você? Não vai ajudá-los? – respondeu sem humor, indicando os alunos ao redor do amontoado de livros.
  • A tarefa será feita, de qualquer forma – ela deu de ombros – basta-me sentar e esperar. 
  • Típico de um sonserino. – ele a encarou num tom acusatório – Vai sentar aí e esperar que outros façam o trabalho por você.
  • Não estou te vendo ajudá-los. – ela retrucou.
  • Tenho outras coisas nas quais pensar. – seu resmungo baixo foi ignorado por ela, que apenas molhou a ponta da pena no frasco de tinta, voltando ao seu desenho e o deixando novamente em ansiedade.

Ele podia terminar de organizar os livros e pedir para ser liberado, mas o propósito do castigo eram as horas forçadas portanto não surtiria efeito algum; ou poderia fingir estar doente por causa do frio intenso, mas seria levado para a enfermaria e ficaria em observação; as ideias iam tão rápido quanto vinham e Sirius começou a cogitar ajudar os outros na organização só para não ficar tão ansioso.

  • Você está manchando outra vez o nome da nossa família! – a voz irritante de Bella soou clara por todo o local, num murmúrio que saiu mais alto do que esperava, o que chamou a atenção de Sirius que estava prestes a dizer algo em defesa de Andrômeda quando Bellatrix se afastou, desaparecendo entre as prateleiras.
  • Não sei porque ainda se esforça, minha prima. – Sirius falou assim que desviou o olhar do local – Ela não merece sua compaixão, muito menos que tente manter com ela uma boa relação.
  • Enquanto a tiver por perto, sei do que preciso me defender. – Andromeda baixou o tom de voz: – Tentou convencer meus pais a conseguirem-me um casamento arranjado como o de Cissa, e agora eles querem que isso ocorra o quanto antes.
  • Outra vez? Andy, você precisa sair daquela casa. – ele se inclinou durante o sussurro, lançando um olhar cauteloso a Violet. – Pode pedir refúgio aos pais de James!
  • E os Potter por acaso querem uma legião de Blacks na casa deles?! Sirius, não sou inocente em acreditar que me consideram confiável. Nem mesmo você me trata com confiança genuína desde que fui selecionada para a sonserina, e nos conhecemos durante toda a vida! Não se engane quanto à divisão de casas, elas não se limitam apenas a Hogwarts.

Sirius engoliu em seco, não era segredo a ninguém que ele odiava os sonserinos mas não havia lhe passado pela cabeça que mesmo Andromeda considerasse que tais sentimentos se estendiam à ela.

  • E quanto àquele garoto com quem vinha se encontrando? – Sussurrou quase inaudivelmente, mantendo seus olhos na outra sonserina, que ainda desenhava. – Pode conseguir abrigo junto dele até que resolvamos isso.
  • Eles me deserdariam. – a voz dela era certa. 
  • E então seria como eu. É disso que tem medo? – acusou, fixando seus olhos nos dela. – Só pensa no assunto. Quando fugi eu precisei de um amigo e James estava lá, então se precisar de algo me avise. – ela assentiu relutantemente e se levantou, indo na mesma direção que a irmã.

Sirius voltou a se recostar na cadeira e tão logo desocupou a cabeça das preocupações sobre Andromeda, sua mente voltou à Casa dos Gritos e seus dedos voltaram a palpitar sobre a mesa.

  • Por Merlim, Black! – Violet reclamou, soltando a pena no vidro – Não consegue ser silencioso?
  • Pois saiba que o ruído de sua pena está me incomodando bastante, consegue fazer algo em relação a isso? – sorriu cínico.
  • Eu deveria imaginar que é incapaz de ser discreto considerando o modo ridículo com que se esconde quando bisbilhota nossos treinos. Está inseguro com seu desempenho numa vassoura, Black?
  • Então anda prestando atenção em mim? – Sirius apoiou o cotovelo na mesa e ela mergulhou seus olhos nos dele, que retribuiu o ato pacientemente. Ele só notou que ela não tinha intenção de responder quando se viu formulando uma nova frase, ainda encarando o castanho de seus olhos: – Ouvi dizer que você é tão boa quanto eu em fugir de detenções.
  • E quem lhe disse isso? – ela desviou o olhar contendo um sorriso orgulhoso.
  • Estou sem ideias e preciso de ajuda para sair daqui. – levantou o olhar para o relógio robusto na parede – em menos de vinte minutos.
  • E por que motivo eu te ajudaria?
  • Estou pedindo educadamente.

Ela riu: – Que convencido. Eu ajudo, e você fica me devendo uma. – semicerrou os olhos.

  • Não faço tratos com sonserinos.
  • Então fique aqui e saia às 23h, tenho certeza que inventará uma desculpa válida para quem quer que seja a garota te esperando no corredor.
  • Tá, tanto faz. – ele assente.
  • Vai ficar me devendo uma? – ela debochou.
  • Não vou deixar vocês ganharem jogo nenhum. – avisa.
  • Não se preocupe com isso, Black. Eu me garanto. – Sirius observava seu rosto atentamente quando ela lhe lançou uma piscadela, se levantando da mesa e caminhando na direção do monitor, que lia um livro entediado na mesa próxima à janela.

Ao desviar o olhar dela, ele pôde ver com mais atenção o desenho criado em seu livro. Os traços firmes e precisos indicavam a habilidade que a garota possuía e Sirius, intercalando cuidadosamente o olhar entre o livro e Violet, o puxou pra mais perto de si, vendo que se tratava de uma serpente enrolada numa vassoura. Os detalhes eram seguidos de setas finas onde se liam suas anotações sobre as colorações do que parecia se tratar de um esboço para algum logo. O brasão do time de quadribol das Holyhead Harpies estava no canto da folha e Sirius ligou as pontas rapidamente. A vassoura era uma Cleansweep Five, a mesma que Gwendolyn Morgan, capitã dos Harpies em 1953 usou para surrar o capitão dos Gaviões, quando este a pediu em casamento em campo após o fim do jogo considerado por muitos o mais intenso de todos os tempos, em que se deu a vitória das Harpies. Havia sido um momento marcante para todos os amantes de quadribol e não era surpresa que Greengrass tivesse o mesmo pensamento, mas era mais um ponto em que suas opiniões divergiam: Sirius torcia pros Montrose Magpies, o maior adversário das Holyhead.

Risadas baixas chamaram sua atenção e ele se virou a tempo de vê-la se aproximando, então rapidamente empurrou o livro de volta ao seu lugar.

  • Deu certo – ela deu uma risada convencida – vamos sair pela janela da sessão de história da magia, temos três minutos. – fechou seu livro e indicou com um olhar por cima de seu ombro o monitor se levantando de sua mesa e saindo do local após lançar um olhar para eles. Sirius não conseguia acreditar em como havia sido fácil pra ela.
  • Como assim? Você vem também? – ele se levantou, seguindo-a.
  • Não se preocupe, não vou te seguir. – ela falou mais baixo ao chegar na sessão desejada – Não tenho a intenção de te assistir se esfregando em alguma pobre garota, só quero sair daqui. Abra a janela.

Ele abriu e ela pôs a escada próxima a ela de forma discreta, subindo em seguida. Gesticulou para que ele fizesse o mesmo e quando estavam os dois sentados ele deu uma risada cínica: – E agora? Qual é o próximo passo de seu plano? – a biblioteca ficava no segundo* andar e as janelas eram altas o suficiente para que a queda fosse significantemente dolorosa.

  • Não assistiu as aulas de feitiços? Fecha a boca! – ele mal pôde sintetizar o que havia escutado quando sentiu a mão dela em suas costas, o empurrando junto a ela para o lado de fora. Estavam caindo. O desespero tomou conta dele enquanto o chão ficava mais próximo e ele se viu gritando “Accio Vassoura!” repetidas vezes enquanto gesticulava com sua varinha, a última dessas sendo interrompida pela voz forte de Violet, que gritou “Arresto Momentum!” quando já estavam há poucos metros do chão. Seus corpos flutuaram abruptamente no último segundo e então, como se um fio fosse cortado, caíram no gramado.
  • Puta que pariu, Greengrass! – ele se levantou mal humorado limpando suas vestes.

Ela riu enquanto ajeitava suas roupas e recolhia o livro que havia caído no chão: – Realmente pensou que sua vassoura viria até aqui?

  • Eu pensei que fosse morrer! – reclamou ajeitando o cabelo na bagunça habitual. A lua já brilhava no céu e ele não pôde deixar de notar em como a noite combinava com a garota. – Faz isso com frequência?
  • Praticar feitiços ou pular de janelas?
  • Ajudar grifinórios.
  • Não é um hábito que cultivo, mas tenho certeza de que pode manter esse grande segredo entre nós – ela sacudiu alguns fios de cabelo e guardou a varinha, olhando significativamente para a de Sirius, que a apertava firmemente.
  • Como conseguiu que ele nos ajudasse? – Sirius questionou, observando atentamente a dobra das vestes onde ela havia deixado a varinha. – O monitor, digo.
  • Ele também me devia uma… – sorriu dando um passo adiante para dar a volta até a entrada do castelo e Sirius viu o brasão da Sonserina brilhar em seu manto, um reflexo da lua que o aguardava na casa dos gritos. – Fique longe do campo durante meus treinos ou eu mesma te expulsarei, Black! – ela ameaçou quando já estava longe.

me. me. me.

finally i am writing down what i think may be wrong with me. my faults. my insecurities and my problemsmaybe if i could make a list of my faults, i could use this as a reference to be aware of everyday things that affect me.

kc-dominat paradigo.De(t)8

12.mai-19: “sabe, sou uma pessoa muito egocêntrica, e acho que tento esconder isso das pessoas agindo com um ‘altruísmo’ excessivo. o que só deixa essa característica ainda mais evidente. não é como se eu fizesse coisas boas apenas para que as pessoas vejam, nem nada do tipo. noto que faço muitas coisas buscando um certo alívio, talvez a sensação inebriante de ser uma boa pessoa, e isso não deveria ser a motivação. não que eu não me importe com os outros, mas acho que o egoísmo de uma boa ação se encontra no prazer que sentimos após realizá-la.”
e condenamos a nós mesmo quando isso é tudo o que buscamos.

dominat paradigo – [refers to the values, or system of thought, in a society that are most standard and widely held at a given time. dominant paradigms are shaped both by the community’s cultural background and by the context of the historical moment.]